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'Noé' vai além da Bíblia e humaniza seus personagens

Abr 04 Escrito por  Lido 9937 vezes
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Filme do diretor de 'Cisne Negro' tem Russell Crowe e Jennifer Connelly.
Locações, roteiro e fotografia são destaques; vilão e efeitos são regulares.

A história de Noé e sua arca é uma das mais comentadas do Antigo Testamento da Bíblia e já foi contada de várias formas. No Brasil, uma das versões foi feita por Vinícius de Morais, que criou poemas musicados para um especial da TV Globo nos anos 80. No cinema, há poucas versões, sendo que a principal é de 1966, como parte do filme “A Bíblia”, com John Huston. Agora, foi a vez de Darren Aronofsky (“Cisne Negro”) dar a sua versão muito pessoal da clássica trama em “Noé”, que estreia no Brasil nesta quinta-feira (3). Ele conta com tudo que uma superprodução de cerca de US$ 125 milhões pode oferecer.
O filme mostra a trajetória de Noé (Russell Crowe), retratado como um bom marido e pai, homem justo e honesto. Ele está no meio da perversão, causada especialmente pelos descendentes de Caim, o filho de Adão que se tornou o primeiro assassino do mundo ao matar o próprio irmão Abel.


Após uma mensagem de Deus, via sonhos, Noé descobre que a Terra será destruída por um grande dilúvio. Após conversar com seu avô, Matusalém (Anthony Hopkins), Noé se convence de que precisa construir uma arca para salvar sua esposa Nammeh (Jennifer Connelly) e seus filhos Shem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Javé (Leo McHugh Carroll), além de Ila (Emma Watson), uma jovem que adotou. A construção da arca também chama a atenção de Tubal Cain (Ray Winstone), que parte com o seu exército para tentar dominar a embarcação e escapar da tragédia iminente.
O que faz “Noé” valer a pena é que Aronofsky não poupa esforços para fazer de seu filme o mais espetacular possível. A belíssima fotografia de Matthew Libatique destaca imagens arrebatadoras das locações na Islândia, onde boa parte do filme foi feita, assim como a impactante trilha sonora de Clint Mansell. Tudo isso reforça o tom épico da produção. O design de produção de Mark Friedberg se faz notar especialmente na criação da Arca, que foi construída com base no que estava escrito na Bíblia.
O resultado impressiona na tela grande. O único ponto negativo foi que, mesmo com trabalhando com uma equipe da Industrial Light And Magic (“Star Wars”), os efeitos especiais não tenham ficado tão bons. Um claro exemplo disso é visto nas cenas com os Guardiões (dublados por Nick Nolte e Frank Langella), que ficam pouco convincentes e evidenciam a computação gráfica, algo que poderia ter sido melhor elaborado.
As relações entre personagens e suas motivações são bem elaboradas pelo roteiro de Aronofsky em parceria com Ari Handel. O texto procura mostrar que todos os participantes da trama, apesar dos elementos fantásticos, são seres humanos, com suas qualidades e fraquezas. Para uma produção que pretende conquistar o espectador apenas pelo apuro estético (e, obviamente, ganhar muito dinheiro com bilheteria), chega a ser surpreendente a preocupação de fazer as pessoas pensarem que ninguém é realmente um santo. Pena que, infelizmente, este cuidado não é observado quando olhamos para o vilão, que é só mau, apesar de ser bem defendido por Winstone.
Três vencedores do Oscar
O cineasta acertou em escalar Crowe para viver seu atormentado protagonista. O ator, cada vez mais se especializando em estrelar épicos, passa de forma apropriada os conflitos que Noé vive em tomar atitudes questionáveis em nome de sua família e de sua devoção a Deus.
Jennifer Connelly, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante de 2001 por "Uma Mente Brilhante", também com Crowe, mostra ter sincronia com o astro. Hopkins pouco tem a fazer como Matusalém, mas mostra a sua segurança habitual. O jovem Logan Lerman mostra bem os dilemas que vive, ao se questionar se aceita as ordens do pai, ou se cede à tentação de Tubai Cain. Já Douglas Booth se mostra completamente ineficaz para um papel tão importante para a trama como Shem. Emma Watson, por outro lado, está muito bem como a filha adotiva de Noé, que acaba tendo que se indispor com ele num dos momentos mais tensos do filme, durante o terço final.

Com um ritmo irregular, que pode irritar uma parte do públio que busca emoções intensas, "Noé" ainda assim consegue se manter estável durante boa parte de seus 138 minutos. O filme toma um fôlego e consegue no seu final agradar até aos que são fiéis ao que está escrito na Bíblia, com passagens próximas ao que se sabe sobre a saga do profeta e sua arca. Apenas pretende entreter e, ao mesmo tempo, refletir sobre o que os homens estão fazendo com o mundo em que vivemos e se realmente o merecemos. A resposta está longe de ser descoberta. Mas não custa parar para pensar sobre ela.

G1

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